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A vida dos outros.
Por: Humberto Pazian
“Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina.” – Paulo (Tito, 2:1.)
De vez em quando, numa conversa aqui ou ali, ouvimos alguns companheiros, entusiasmados, dizerem que a nossa missão – a dos Espíritas – é a de reformar o mundo. È óbvio que, se cada um fizer a sua parte na reforma íntima, com o passar do tempo estaremos contribuindo significativamente para a melhoria do planeta mas, não é dessa maneira que, algumas vezes, agimos em relação a isso.
Com o objetivo de “reformar o mundo” e “ajudar o próximo”, muitas vezes, excedemos e interferimos na vida alheia; comentando, julgando e tirando conclusões precipitadas.
Observando o tempo que passamos analisando os atos do próximo e os comentários que fazemos, mesmo aqueles “sem maldade”, teremos uma noção se esse texto serve ou não para nós.
Há uma história que me foi contada, que, de uma forma interessante, ilustra bem esse tema:
Conta-se, que numa época remota, em um País longínquo, viviam alguns monges em um mosteiro com votos de se absterem de todos os prazeres da matéria.
Os ensinamentos e o treinamento eram rigorosos e os alunos se aplicavam ao máximo.
Certo dia, um jovem aprendiz fora convocado para seguir seu mestre até uma aldeia próxima em busca de provisões. Tão logo fora comunicado seguiram viagem em completo silêncio e retidão de pensamento.
Após as providências tomadas, seguiam o caminho de volta quando foram apanhados por uma forte tempestade que ocasionou grandes estragos na região. Assim que findou a tormenta prosseguiram a viagem quando, chegando próximos a um pequeno rio, que deveriam transpor, notaram que a frágil ponte havia caído, devido a forte correnteza.
Ao chegarem mais próximo, uma jovem que se encontrava oculta entre as árvores, observando que se tratava de dois monges, aproximou-se e, humildemente, pediu ajuda para atravessar o rio.
O jovem aprendiz, imediatamente, virou o rosto para não ter nenhum contato com a jovem, mas foi com grande espanto que observou o mestre pegando a mulher nos braços e carregando-a seguramente a outra margem, onde a deixou. Embora chocado com o que aconteceu, o jovem discípulo não ousou interpelar o mestre e a viagem de volta ao mosteiro prosseguiu em silêncio.
O fato, porém, não foi esquecido pelo jovem monge. Perdia o sono com a lembrança e não se conformava com a atitude de seu mestre, pois se ele, iniciante, buscava executar fielmente as normas da comunidade por que então seu mestre agira dessa forma? Passados mais alguns dias e já em completa desarmonia mental, resolveu procurar o mestre e esclarecer-se.
--- Mestre me perdoe, mas não tenho paz desde o dia em que encontramos aquela mulher na margem do rio.
O respeitoso monge, com serenidade, respondeu-lhe:
--- Mas você não fez os votos de não pensar nessas coisas?
--- Sim mestre, mas o senhor carregou aquela jovem pelo rio.
O sábio mestre, com a mesma serenidade, concluiu:
--- Sim, eu a carreguei até o outro lado do rio, mas lá a deixei, enquanto você a tem carregado em sua mente até agora.
Sem dúvida foi uma bela lição para o jovem monge. Servirá para nós também?
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